~ A fornalha, o fole e a fundição ~


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Quanto o universo me paga para não estar no Facebook

Duas cur­tas adver­tên­cias: [1] sou tão super­fi­cial quanto qual­quer um; [2] claro que um dia vou capi­tu­lar: claro que um dia vou fazer parte da rede social mais popu­lar do pla­neta. Isso não muda o fato de que o uni­verso me paga, dia após dia, para não ceder ao Face­book. Falo, é claro, do uni­verso offline do café com bolo de fubá, da tra­ves­sia de fer­ry­boat, da casa alu­gada na praia, do boli­nho de carne seca comido no bar, de espe­rar que o amigo saia final­mente da sala de desem­bar­que, da cor­te­sia na fila do cor­reio, das pes­soas que impri­mem livros e das que os com­pram, das ruas de Mor­re­tes, dos últi­mos pas­to­res de ove­lhas da Itá­lia, da velha senhora que é tia de alguém e que mora sozi­nha entre [...]

Brasilicata

Para desenhar um círculo

No décimo-​​​​sexto volume de Vidae zu santi della Bra­si­li­cata de Giu­seppe di Ans­ci­etta está escrito que São Coro de Minân­cia tinha uma espada que só levan­tava para deter os que o admi­ra­vam. “De todas as mis­sões que Deus outor­gou a cada homem, a maior e mais urgente é dis­su­a­dir qual­quer outro homem de segui-​​​​lo (Ora­ção à treva que pre­cede a aurora, XII, V)”. Está dito que São Coro só achava inte­res­san­tes os peca­do­res, só encon­trava pra­zer na pre­sença dos que o toma­vam por pes­soa comum e temia e detes­tava como o diabo os que o admi­ra­vam. “Não há volume da Bibli­o­teca Infer­nal que não trate da arte de expres­sar admi­ra­ção [...] Só quem crê em si mesmo mais do que em mim tem o direito de me seguir”. Todas as noi­tes [...]

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A espada circular

As novas solu­ções que ado­ta­mos ani­qui­lam as solu­ções que exis­tiam antes. Pro­gre­dir é des­truir mun­dos mor­dendo a isca perene de um mundo melhor – mas quem sabe medir o que é melhor? Tudo que eu que­ria era escre­ver um romance: isto é, que­ria repre­sar uma his­tó­ria entre as pági­nas de um livro. Em vez disso fiquei conhe­cido como blo­gueiro, mas isso não quer dizer mais nada: com toda a pro­ba­bi­li­dade você está lendo esta nota não por­que acom­pa­nha o meu blog, mas che­gou aqui atra­vés do twit­ter ou do face­book. Por­que, ouça, as pes­soas não leem mais roman­ces. As pes­soas não acom­pa­nham mais blogs. Roman­ces e blogs são ins­tru­men­tos e vozes de uma outra era; quando não se calam é por tei­mo­sia e por amor à forma, como aque­les dile­tan­tes que [...]

Ferramentas

A igrejização da sociedade

Houve tempo em que o mundo era um deserto, e quem encon­trava uma igreja encon­trava um tesouro. Hoje em dia, quando nin­guém tem como igno­rar o mal que a igreja ins­ti­tu­ci­o­nal per­pe­trou e per­mi­tiu ao longo dos sécu­los, pode ser fácil igno­rar que ao longo de todo esse tempo a igreja per­ma­ne­ceu, a seu pró­prio modo ambí­guo (por­que ins­ti­tu­ci­o­nal) um refú­gio e um con­forto – num tempo em que essas coi­sas eram con­si­de­ra­vel­mente mais raras e mais caras do que no nosso. Por quase dois milê­nios a igreja foi, no oci­dente, o único lugar em que gente de todos os sexos, raças e níveis soci­ais podia ser con­ce­bi­vel­mente vista debaixo do mesmo teto ao mesmo tempo. Homens e mulhe­res, cam­po­ne­ses e magis­tra­dos, resi­den­tes e estran­gei­ros, ricos e pobres fazendo alguma coisa [...]

Deslizes do Brasil

Como explicar o Brasil para um italiano

O Bra­sil é inex­pli­cá­vel. Tem por exem­plo o lance dos trens. Ou melhor, não tem. Um amigo ita­li­ano que nunca tinha vindo ao Bra­sil resol­veu pas­sar uma semana aqui em casa. Logo que con­fir­mou a data de che­gada em Gua­ru­lhos eu disse que era melhor que ele com­prasse tam­bém os voos de Curi­tiba – não só por­que com ante­ce­dên­cia fica mais barato, mas tam­bém por­que a pas­sa­gem na mão é a única meia-​​​​garantia con­tra algum con­ges­ti­o­na­mento impre­visto. – Não sei – disse neste momento o ita­li­ano, – posso sem­pre com­prar uma pas­sa­gem de trem quando che­gar. Uma pas­sa­gem de trem. Para Curi­tiba. Quando che­gar. Cara. Meu. Como se diz em ita­li­ano, povero illuso. O sujeito nem tinha ainda colo­cado o pé no Bra­sil e já me vi obri­gado a, por assim [...]

Manuscritos

A máquina no céu

Pode­mos supor que, do mesmo modo que o incons­ci­ente nos afeta, um acrés­cimo no cons­ci­ente afeta o nosso incons­ci­ente. Carl Jung em Memo­ries, Dre­ams, Reflec­ti­ons   A chuva era uni­ver­sal, ocu­pando o espaço da cidade sem pausa e sem tré­gua havia dois ou três dias, como se o dilú­vio fosse o estado natu­ral das coi­sas. O livro que ele pou­sou em cima da mesa, entre o cin­zeiro e a gar­rafa de Chi­anti, eu já conhe­cia, o último dele, publi­cado qua­tro anos antes. O dese­nho da capa mos­trava uma cena clás­sica de abdu­ção: um homem num des­cam­pado sur­pre­en­dido pelo cír­culo de um facho de luz que des­cia de um disco voa­dor vários metros acima dele. – Estou pronto a dar a res­posta que você quer ouvir – ele puxou o cigarro aceso [...]

Deslizes do Brasil

As persistentes persuasões do desenvolvimento

O que o PT e o capi­ta­lismo têm em comum? A crença de que de uma pro­du­ção cres­cente bro­tará natu­ral­mente a jus­tiça. Foi pre­ci­sa­mente essa perda de con­tato com o pas­sado, nosso desen­rai­za­mento, que deu ori­gem aos “des­con­ten­ta­men­tos” da civi­li­za­ção, a uma pressa e uma agi­ta­ção tão gran­des que vive­mos mais no futuro com suas qui­mé­ri­cas pro­mes­sas do que no pre­sente, cujo passo ace­le­rado nosso pano de fundo evo­lu­ci­o­ná­rio não apren­deu ainda acom­pa­nhar. Precipitamo-​​nos impe­tu­o­sa­mente novi­dade aden­tro, gui­a­dos por um senso cada vez mais acen­tu­ado de insu­fi­ci­ên­cia, de insa­tis­fa­ção e de inqui­e­ta­ção. Não vive­mos mais daquilo que temos, vive­mos de pro­mes­sas; dei­xa­mos de viver à luz do pre­sente e pas­sa­mos a viver nas tre­vas de um futuro que, espe­ra­mos, trará o aguar­dado ama­nhe­cer. Recusamo-​​nos a reco­nhe­cer que toda coisa melhor [...]

Deslizes do Brasil

História é beleza

Milhões de auro­ras, milhões de entar­de­ce­res, milhões de noi­tes e de tar­des que aca­ba­ram des­co­lo­rando a fachada, esco­vando os muros e rebo­cando tudo com a massa do tempo: aquela pátina velha, pre­ci­osa e ini­mi­tá­vel que é como o bra­são nobi­liár­quico das edi­fi­ca­ções anti­gas e que recuso-​​me a des­truir com uma reforma. Adri­ana Zarri, falando de sua velha casa, em Un eremo non è un gus­cio di lumaca Meu nome é Paulo Brabo, e sou um via­jante do tempo. O pre­sente não é o meu mundo – e isso, olha, desde a mítica Idade Offline que pre­ce­deu a inter­net, quando metade de vocês não tinha nas­cido. Hoje é um lugar que não existe. Não ignoro, antes que você pes­que a con­tra­di­ção, que até mesmo algo desin­te­res­sante e sem tra­ços dis­tin­ti­vos como [...]

Ferramentas

Perspectiva é ouro

Permita-​​​​me come­çar abrindo o jogo: como todo mundo que nas­ceu aqui menos o Diogo Mai­nardi, curto o Bra­sil e curto ainda mais os bra­si­lei­ros. Como todo mundo, sem­pre achei extre­ma­mente boçal quem acha neces­sá­rio ou van­ta­joso via­jar para Nova Ior­que ou Paris ou Milão ou Bue­nos Aires ou Bar­ce­lona ou a Nova Zelân­dia, como se o Bra­sil não fosse ines­go­ta­vel­mente belo e os bra­si­lei­ros ines­go­ta­vel­mente gran­des. A única coisa con­ce­bi­vel­mente mais boçal do que via­jar para esses luga­res, natu­ral­mente, é ficar con­tando van­ta­gem sobre eles, como se fos­sem o paraíso (alguns de fato são) ou como se ficasse demons­trado que você é uma pes­soa maior ou mais admi­rá­vel só por­que foi encon­trada pelo demé­rito de, num país com uma dis­tri­bui­ção de renda tão desi­gual quanto o nosso, ter grana sufi­ci­ente [...]

Aquisições equívocas

Como ler a Bíblia sem mudar de parecer

A Bíblia é muito mais con­ser­va­dora do que nós mes­mos, por isso na inter­pre­ta­ção da Bíblia deve nos guiar e deve­mos sem­pre per­se­guir den­tre as diver­sas inter­pre­ta­ções pos­sí­veis aque­las mais con­ser­va­do­ras. Porém mesmo os intér­pre­tes mais aus­te­ros e menos libe­rais con­cor­dam que a Bíblia con­tém mate­rial his­to­ri­ca­mente con­di­ci­o­nado – isto é, mate­rial que se a Escri­tura tivesse sido escrita nos nos­sos dias viria dito de forma dife­rente e quem sabe oposta, e que só encontra-​​​​se regis­trado como está por causa da época remota e da cul­tura par­ti­cu­lar em que foi redi­gido. É neces­sá­rio que pen­se­mos assim, por­que entendendo-​​​​as como his­to­ri­ca­mente con­di­ci­o­na­das pode­mos inva­li­dar por com­pleto as pas­sa­gens bíbli­cas que con­tra­di­gam ou ame­a­cem a inte­gri­dade (isto é, o con­ser­va­do­rismo) da nossa pró­pria posi­ção. Como regra geral, pode­mos des­car­tar como his­to­ri­ca­mente con­di­ci­o­na­das [...]